AMULETOS da Tradição Luso-Afro-Brasileira – ANJO CUSTÓDIO

O culto do anjo da guarda radica na crença primeva e universal de que todos os seres humanos são assistidos pessoal e vitaliciamente por daimones ou génios protectores (equivalentes aos jinn corânicos), o mesmo sendo admissível dos lugares (genius loci ou espírito do lugar), bem como das nações (anjo custódio de Portugal). A Igreja católica perfilhou os anjos da guarda desde cedo, fundada mormente em duas passagens, uma do Antigo (Salmos, XCI, 10-12), outra do Novo Testamento (Mateus, XVIII, 10). Orígenes, por exemplo, advoga que “junto de cada homem há sempre um anjo que o ilumina, protege e guarda de todo o mal”, de resto, tal como São João Damasceno (De Fide Orthodoxa, livro 2, cap. III), ou o Padre jesuíta Manuel Fernandes, em cuja Alma Instruída na Doutrina e Vida Cristã (t. 1, Lisboa, 1688, p. 164) se mostra peremptório: “É de fé que cada um tem seu Anjo que o guarda, posto que não seja de Fé que cada um tem seu Demónio que o assista”. São Jerónimo não deixaria de sublinhar a grandeza da alma humana, ao ponto de, “desde o nascimento, ser guardada por um Anjo”. Dom António Caetano de Sousa (Agiológio Lusitano, comentário ao XVIII de Julho, p. 216) assegura que o exercício da função de Anjo da Guarda é da competência dos anjos, propriamente ditos (“terceira hierarquia do último Coro”), de tal modo que “em nascendo uma criatura, logo Deus lhe dá um anjo deste Coro para que a guarde e defenda e a guie ao fim para que foi criada”. Esse o motivo por que a iconografia figura o Anjo da Guarda geralmente acompanhado por uma criança, símbolo da alma humana, com o bordão de peregrino.

A festa do anjo da guarda foi aprovada por Paulo V, em 1608, apenas para o Império Austríaco, tendo sido alargada por Clemente X a todo o orbe católico, em 1670. O anjo da guarda, como conselheiro e hierofante do Ser e mais seguro guia para aceder ao mundus imaginalis, “orientando pelo mistério do pressentimento” (como sublinha Câmara Cascudo), era devoção já implantada em Portugal na centúria de quinhentos, como denotam: a circunstância de Francisco de Holanda ter dedicado ao Anjo Custódio um dos seus escritos perdidos, intitulado Louvores Eternos (manuscrito datado de 22 de Novembro de 1569, citado por Barbosa Machado); ou a rainha D. Catarina, no testamento que ditou, em 1574, não se ter esquecido de pedir ao seu Anjo Custódio que a amparasse na hora da morte (Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, t. 3, Lisboa, 1744, p. 24). Por seu turno, Isabel de Figueiredo († 1684), madre no mosteiro de Lorvão, atesta igualmente a veneração pelo anjo da guarda entre nós, pois, tendo ficado cega e indo certo dia ao coro perdeu o rosário que seria entregue à sua criada por um menino, o qual, em virtude da sua formosura, foi identificado com o Anjo da Guarda da monja [ANTT: Lorvão, n. 310, fl. 17v].

Almada Negreiros (1893-1970) garante que se trata de: “[…] um Anjo lindíssimo, mais lindo sem comparação nenhuma do que qualquer outro, e tal qual o sonho doirado de cada um. Tem umas grandes asas doiradas para acompanhar a voar o sonho doirado de cada um. E volta outra vez para o pé daquele a quem guarda por ordem de Nosso Senhor, para lhe contar até onde vai o seu sonho a voar. Mas ai daquele que desconheça a tal ponto o seu próprio sonho que não saiba sequer fazer as perguntas, pois o Anjo da Guarda só responde ao que for realmente bem perguntado. E quando a nossa pergunta estiver bem feita, o Anjo da Guarda responde imediatamente: Amigo! a tua pergunta está tão bem perguntada que se pensares mais um bocadinho tens já a resposta a seguir. Com efeito, pensa-se mais um bocadinho e pronto, é logo a resposta a seguir! Quer o Anjo da Guarda dizer com as suas palavras que muito mais difícil do que responder é perguntar” (Pierrot e Arlequim, personagens de theatro: ensaios de dialogo seguidos de commentarios, Lisboa, 1924). A evocação de uma tal intimidade teofânica com o “divino e invisível companheiro”, de resto, consentânea com as exigências ontológicas e hermenêuticas da filosofia profética portuguesa, supõe, contudo, a obediência a regras protocolares bem definidas, a que não é indiferente o teor vertigínico de considerável número das preces destinadas ao seu obséquio. Afinal, profetas e poetas sempre coincidiram no que concerne às vias de acesso à transcendência. A Oração do Anjo da Guarda é também conhecida por *Palavras ditas e retornadas, sendo recitada à cabeceira dos moribundos ou para afastar as bruxas.

Discografia: VARIAÇÕES, António, Anjo da Guarda, LP, 1983 (no lado B inclui faixa Anjinho da Guarda) e 1997 (remasterizado); RAMP, Anjinho da Guarda (de António Variações, Anjo da Guarda), 2005 Bibliografia: ANDRADE, Francisco de, Diálogo entre o Anjo da Guarda e o Corpo Humano [ms. cit. Barbosa Machado]; ANÓNIMO, Das Emcelencias do Anjo Custodio [BUC: ms. 1262, fl. 20v]; ANÓNIMO, Novena para celebrar o dia consagrado aos nossos Anjos da Guarda, começa a 23 de Setembro, Lisboa, Regia Officina Typografica, 1783; ANÓNIMO, Ao Anjo da Guarda [música manuscrita, entre 1850 e 1880] [BN: MM 1579]; ANÓNIMO, Tábuas de Moisés e Oração do Anjo Custódio: tiradas de um manuscrito antigo achado num subterrâneo de Elvas, [Valadares, 1955] [BN: R 31555 (12º) P]; ANÓNIMO, Oração do Anjo Custódio, [Barcelos, 1985] [BN: R 38085 P]; CHAVES, Luís, O Anjo-Custódio ou as Palavras ditas e tornadas, in Revista de Guimarães, v. 46, n. 1-2 (Jan.-Jun. 1936), p. 8-24; COIMBRA, José da Costa, Novena do Anjo Custódio, Lisboa, 1756; CRISTÓVÃO DE LISBOA, Frei, Sermão do Anjo Custódio, in Santoral de vários sermoens de sanctos […], Lisboa, António Alvares, 1638 [BN: R 4924 V]; CUSTÓDIO, Idália Farinho / GALHOZ, Maria Aliete Farinho / CARDIGOS, Isabel, Orações – Património Oral do Concelho de Loulé, v. 3, Loulé, 2003, n. 282-283; DIOGO DO ROSÁRIO, Frei, História das Vidas e feitos heroicos e obras insignes dos Sanctos e dos Anjos, Braga, 1567 cap. dedicado a S. Miguel: parte 2, fl. CXLIIv-CXLIII, Coimbra, 1577, Lisboa, 1585, 1590, 1613, 1620, 1622 e 1647; ESPÍRITO SANTO, Frei José do, Sermão do Anjo Custódio, Lisboa, 1673; GANDRA, Manuel J., Em torno do Anjo Custódio de Portugal e de outras epifanias da Hierarquia Celeste no Monumento de Mafra, in Boletim Cultural 2004, Mafra, 2005, p. 203-242; HOLANDA, Francisco de, Louvores Eternos [dedicado ao seu Anjo Custódio (datado de 22 Nov. 1569): ms. cit. Barbosa Machado]; ROQUE, Joaquim, Etnografia Portuguesa – Baixo Alentejo: como o povo reza…, in Arquivo de Beja, v. 3, n. 3-4 (Jul.-Dez. 1946), p. 263-276; VASCONCELOS, António de, Tractado do Anio [sic] da Guarda. Primeira Parte. Da natureza, ordem, e occupaçoens dos Anios, Évora, 1621 [ACL: E 558 / 26]; idem, Obra do Anio [sic] da Guarda. Segunda Parte, Lisboa, 1622

 

Fragmento do livro AMULETOS da Tradição Luso-Afro-Brasileira de Manuel J. Gandra

12 de julho de 2017

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