AMULETOS da Tradição Luso-Afro-Brasileira – AVESSAS

A confusão entre os termos latinos aversus e adversus justificará o conjunto de crenças relacionadas com objectos e comportamentos opostos à norma. Crê-se que caminhar às arrecuas é atrasar a vida (Lisboa), ensinar o caminho ou acompanhar o diabo (Mondim), ou dirigir-se para o Inferno (Óbidos). Em Minde (Seixal), diz-se que quando alguém anda às arrecuas, está Nossa Senhora a chorar e o diabo a rir-se. Quando alguém se esquece subitamente de algo que quer dizer ou fazer, preconiza-se que volte atrás pelo mesmo caminho, para se lembrar (Lisboa). Pôr um banco ou cadeira de pernas para o ar ou vassoura com a *rabada (rama) para cima, atrás de uma porta, faz sair uma visita inoportuna (Lisboa). O mesmo efeito é obtido colocando o cabo de uma vassoura com a rabada para cima, dentro de um banco. Em Melgaço, considera-se destinado ao diabo o *Pai-Nosso dito às avessas: “[…] Céu no como, terra na assim, vontade vossa a feita seja, nome vosso o seja, ficado santo, Céu no estais que, Nosso Padre” (não é conveniente dizer todas as palavras). O mesmo se diz da *AveMaria, rezada às avessas: “Jesus amen morte nossa na hora e agora pecadores nós por rogai Deus de mãe Maria Santa Jesus ventre vosso do fruto o é bendito mulheres as entre vós sois bendita convosco é Senhor o graça de cheia Maria Ave”. Igualmente, da *Salve-Rainha. Pelo contrário, em Trás-os-Montes, têm-se como excelente remédio para afugentar bruxas. Em finais do século XVI (ca. 1583), a benzedora vimaranense Catarina Gonçalves foi denunciada ao Santo Ofício por um tal João de Oliveira, em virtude de o ter mandado beber triago no vinho e água cozida com avenca, salsa e funcho e que atravessasse um rio três vezes, de noite, andando às arrecuas, levando camisa e calças vestidas às avessas, uma espada desembainhada na mão, entre as pernas, com a ponta para trás; chegado a casa havia de vestir a camisa de sua mulher, também às avessas, sendo preconizado idêntico procedimento à sua mulher, e que assim dormissem ambos [ANTT: Inq. Coimbra, liv. 662, fl. 13]. Para curar as *dadas (Arcos de Valdevez) as mulheres devem lavar-se às avessas (?). O pão não se deve pousar voltado porque não foi ganho assim (cf. A. C. Pires de Lima, in Revista Lusitana, v. 17). Varrer a casa às avessas foi pretexto para denúncias na Inquisição, por suposto judaísmo (cf. Maria Antonieta Garcia, Denúncias em Nome da Fé, Guarda, 2000, p. 71). *Contrário.

Fragmento do livro AMULETOS da Tradição Luso-Afro-Brasileira de Manuel J. Gandra

12 de julho de 2017

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