JOÃO FIGUEIREDO E A REDE GLOBO

publicada em 25 de abril de 2015
Em 1987, Ex-presidente Figueiredo disse que a Rede Globo é quem mandava no Brasil na ditadura

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A Rede Globo omitiu das declarações do ex-presidente brasileiro Figueiredo, gravadas em vídeo durante um churrasco em 1987, as partes mais contundentes referentes à Rede Globo.

Por Redação

Figueiredo fala da campanha que se moveu contra o então ministro da Justiça, Abi Ackel. APolícia Federal (brasileira), comandada por Ackel, fez uma batida em contâiners da Globo para investigar o tráfico de drogas, mas descobriu um contrabando milionário de equipamentos para a emissora.Como o material foi apreendido, o ministro começou a sofrer uma campanha difamatória das mais contundentes que já se viu na imprensa brasileira. Ibrahin Abi Ackel pode não ser uma vestal, mas foi destruído não por causa de seus erros, mas por meter o bedelho nos negócios escusos do Roberto Marinho.

Nos últimos anos toda a imprensa brasileira, liderada pela Rede Globo, iniciou uma grande campanha cujo objetivo é, supostamente, combater o uso de drogas, mas com a colocação deste assunto em evidência de forma tão contundente e permanente – sobretudo na televisão – é difícil saber se esta campanha está combatendo ou incentivando o tráfico e o consumo de drogas. Qual é a sua opinião?
No trecho da gravação em que Figueiredo fala do Roberto Marinho à Rede Globo, seguida pela quase totalidade da imprensa brasileira (imprensa esta que está nas mãos de um único grupo, constituído por poucas pessoas) limitou-se a reproduzir:
“É o dono da opinião pública no Brasil. Faz o ministro das Comunicações. Muda quem ele quiser. No dia em que ele quiser virar contra o governo, o governo cai. Ele brigou comigo porque não dei uma estação de rádio ou uma estação de televisão a ele. Não vou dar porque já tem demais. Vou criar três redes. Criei a Rede Manchete, criei o Sílvio Santos, criei a Bandeirantes”. (João Batista de Figueiredo, 1987)

A veiculação deste trecho das declarações não foi feita com o objetivo de criticar o dono da Globo, mas bajular o Roberto “todo poderoso ” Marinho e dizer aos brasileiros que até o Figueiredo sabia que o Marinho mandava neles (nos brasileiros).

O presidente das Organizações Globo negou, segundo o jornal “O Globo” e o programa “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão, que tivesse pedido canal de televisão ou rádio a Figueiredo e também desmentiu que tivesse recebido dos governos militares concessões para operar emissoras, mas Roberto Marinho esqueceu de explicar como a Rede Globo de Televisão, fundada em 1965 – no ano seguinte ao golpe militar (orquestrado pelos norte-americanos) ocorrido no Brasil – pôde iniciar as suas transmissões se ele, Marinho, não ganhou a concessão dos ditadores brasileiros.
Vale lembrar que em 1965 as concessões para emissoras de televisão eram privilégio do presidente da república brasileiro,que só fornecia a amigos muito íntimos da ditadura. Ou será que a autorização para o funcionamento da TV do Roberto Marinho veio direito de Washington?
Figueiredo também criticou Leonel Brizola, citando duas supostas conversas sobre a reforma agrária. Brizola disse que esse diálogo não existiu e atribuiu as declarações do ex-presidente a suposto abuso do uísque ou do chope, durante o churrasco,mas segundo o “Fantástico”, Brizola declarou que “Figueiredo era muito brincalhão”.
O que disse Figueiredo
Alguns trechos da conversa do ex-presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, em depoimento gravado durante um churrasco, em 1987:

Sobre o Caso Riocentro – I (conversa com o ex-presidente Ernesto Geisel, na missa pelos 50 anos de casamento do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici):“Ele sentou ao meu lado e disse: ‘Figueiredo, você tem de apurar o negócio do Riocentro.’ ‘Não tenho não. Primeiro, porque não sou a Justiça. Eu sou Executivo. Quem vai apurar é a Justiça.’ ‘Mas tem de punir’. ‘Quem vai punir é a Justiça também. Eu não tenho nada a fazer que não seja dar força à Justiça para ter liberdade de apurar e punir os responsáveis’. ‘Mas tem de haver um responsável’. ‘Mas eu não vou inventar um responsável como o sr. fez com o general D’Ávilla Mello. D’Avilla Mello estava comandando o 2º Exército em São Paulo, mataram ou morreu um camarada, sei lá, nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e demitiram o general. Achei uma barbaridade. Porque duvido que o D’Ávilla Mello estivesse metido naquela história. E eu disse: ‘Essa injustiça não vou fazer. Não vou procurar um inocente para acusar. Ou provo que o sujeito é culpado e puno, ou então não é’.

Sobre o Caso Riocentro – II (as investigações):

“Eu estava na Granja do Torto num sábado de manhã quando recebi telefonema do Heitor de Aquino comunicando o fato. Disse para ele: ‘Até que enfim os comunistas fizeram uma bobagem’, eu crente que os comunistas tinham posto a bomba no carro. Meia hora depois, telefonaram-me. Não era o Heitor. ‘Presidente, há indícios de que foi gente do nosso lado.’ Aí, chamei o Walter Pires e mandei abrir o inquérito. (…) Aí, chamei o coronel Job Lorena. Disse-lhe: ‘O que você apurar, traga para mim’. Até hoje, não sei qual é a verdade. (…) Aí, começaram a me acusar de ter acobertado. Não acobertei. Qual o interesse que tinha em acobertar? O que queriam era mostrar que o general Medeiros e Newton Cruz tinham mandado colocar a bomba no Riocentro”.

Sobre o caso Baumgarten (assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten):

“Tanto que, depois, pegaram o Newton (Cruz) como responsável pela morte daquele safado do Baumgarten e apresentaram como testemunha um salafrário que era aquele Polila, que não vale nada. E o general Newton Cruz, um dos sujeitos mais inteligentes que eu conheço, seria um burro que mandou matar o Baumgarten e foi ver matar?”

Sobre o relatório Saraiva (documento do adido militar do Brasil em Paris, acusando Delfim Netto de envolvimento num caso de corrupção em que teria ganhado US$ 6 milhões):

“O coronel Saraiva mandou para a 2ª Seção do Estado-Maior do Exército um informe dizendo que o Delfim estaria em ligações com o irmão do primeiro-ministro Giscard D’Estaing. E que receberia 10% dos negócios. Mandei dois agentes a Paris para verificar o caso. Não havia nenhuma prova. Cheguei para o presidente Geisel e disse: ‘O negócio aqui é ‘consta’, pode ser verdade ou mentira. E depois o Delfim não é tão burro assim para se expor abertamente’. O Geisel então disse: ‘Está bem’. Mas ficou no ar o tal relatório Saraiva. (…) Resultado: o Saraiva não foi a general porque não provou o que disse. E o Delfim está aí”.

Sobre o Caso Capemi (irregularidade envolvendo a comercialização da madeira a ser extraída da área inundada pela represa de Tucuruí):

“Fizemos uma concorrência para vender a madeira e limpar a área onde seria feita a barragem de Tucuruí. Só uma firma se apresentou – a Capemi – e, por isso, ganhou. Entregamos a um homem sério do Exército: o general (Ademar Messias) Aragão. Dois diretores aproveitaram-se do meu filho (Paulo), que fazia parte de uma firma na qual tinha 50% das ações. O sócio dele fez um negócio com a Capemi, de compra e venda de 100 metros cúbicos de madeira. E tinha de fazer um depósito de 15 milhões. Fez, então, o depósito, sem consultar o meu filho para mostrar que a firma tinha lastro, tinha idoneidade. Mas não existe um documento assinado pelo meu filho. Dois anos, eles tinham entregue só três metros cúbicos de madeira. Aí, o Ricardo foi à firma e disse: 100 metros cúbicos não dá, vamos fazer então 10 metros cúbicos. Depois, o Paulinho obrigou ele (sic) a baixar para três metros cúbicos. Aí, a firma faliu. E acusaram a firma de ter comprado a madeira por um preço abaixo do mercado internacional. E aí era para ter acionado a firma, mas acionaram Paulo Figueiredo, porque era filho do presidente. Chamei o dr. Leitão (de Abreu, ministro da Casa Civil) e disse que verificasse tudo. Leitão (…) afirmou que não havia nada. Mesmo assim, levaram dois anos explorando o episódio”.

Sobre o caso Abi-Ackel (ministro da Justiça de Figueiredo, acusado de contrabando de pedras preciosas, que acusava a Rede Globo de ter envolvido seu nome no episódio por vingança):

“Aquilo foi uma maldade do Roberto Marinho. A Polícia Federal estava atrás de contrabando de cocaína através de malotes de empresas privadas. E a Rede Globo seria uma delas. Este negócio vazou pelo diretor da Polícia Federal, o coronel Coelho, e o Roberto soube que a Rede Globo seria uma delas. Roberto Marinho, então, fez uma viagem ao estrangeiro com os auxiliares e quando voltou (a PF) fez um espalhafato danado, mandou abrir as malas. Roberto Marinho ficou com raiva, pensando que o Abi-Ackel tinha alguma coisa com isso. Quem estava fazendo era a Polícia Federal. Como o Abi-Ackel aceitou ser advogado (após deixar o governo) de uma firma estrangeira, Roberto Marinho descobriu que essa firma lidava com pedras preciosas. Um advogado americano mandou um documento acusando a firma de contrababando de pedras preciosas. Roberto Marinho botou logo no ventilador e publicou tudo. E o Abi-Ackel ficou naquele negócio: se até o Al Capone teve direito a advogado, por que ele não poderia ser advogado da firma? Ele dizia que não entrara para facilitar o contrabando. E ficou nesse negócio até que a Justiça americana julgou o caso e inocentou a firma e prendeu como estelionatário o advogado que deu o documento para o Roberto Marinho”.

Sobre Roberto Marinho:

“É o dono da opinião pública no Brasil. Faz o ministro das Comunicações. Muda quem ele quiser. No dia em que ele quiser virar contra o governo, o governo cai. Ele brigou comigo porque não dei uma estação de rádio ou uma estação de televisão a ele. Não vou dar porque já tem demais. Vou criar três redes. Criei a Rede Manchete, criei o Sílvio Santos, criei a Bandeirantes”.

Sobre Miro Teixeira (atual líder do PDT na Câmara):

“Esse é uma piada, uma brincadeira. Eu botava o Mirinho de castigo, de joelho”. (O hoje líder do PDT disse que não dá importância às opiniões de Figueiredo a respeito dele, pois eram adversários, mas “ao que disse de si mesmo, que não engrandece a biografia do ex-presidente).

Sobre Leonel Brizola (presidente nacional do PDT, governador do Rio durante o governo Figueiredo):

“O dia em que chegar à Presidência, será o maior ditador que o País já viu, porque ele é um caudilho mesmo. Perguntei-lhe, nas duas vezes em que esteve na minha casa: ‘O sr. é socialista?’ ‘Sou’. ‘Quer dizer que o sr. é a favor de uma reforma agrária?’ ‘Sou’. ‘Reforma agrária radical?’ ‘Radical’. ‘No Uruguai ou no Brasil?’ ‘Aí, o Brizola ficou bravo e, depois, perguntou: ‘General, o sr. está brincando comigo?’ ‘Não. O sr. vem à minha casa e acaba de confessar-me que acaba de vender sua estância em São Borja e comprar outra no Uruguai. Então, o sr. não pode ser socialista no Uruguai. Tem de ser no Brasil. Por isso que o sr. vendeu a sua estância no Brasil para poder defender a bandeira da reforma agrária. Inventou um troço que eu não sei o que é: o socialismo moreno. Deve ser por causa da cor da tez do nosso povo. Ou o sr. acha que o que vai marcar o indivíduo é a cor da pele ou o que o indivíduo tem na cabeça? Não sei o que é socialismo moreno. Eu quero ver, se houver um socialismo no Uruguai, o que o sr. vai fazer”. (O presidente nacional do PDT disse que esse diálogo não existiu e atribuiu as declarações do ex-presidente a suposto abuso do uísque ou do chope, durante o churrasco).

Sobre Antônio Carlos Magalhães (atual presidente do Congresso, do PFL da Bahia):

“Se houvesse um sistema mundial para medir mau caráter, ele seria a unidade do sistema”.

Sobre Moreira Franco (candidato do PDS a governador do Rio em 1982):

“Não quero falar dele, porque, se tivesse de falar, diria que é uma besta. Safado! Safado! Ordinário! (…) Foi a primeira vez que a Dulce participou de um comício, e o Moreira disse (depois que o povo vaiou as autoridades na concentração): ‘Vocês vieram porque quiseram; eu não pedi’” (…) O Moreira, depois de derrotado, veio pedir-me um lugar de ministro’. ‘Mas por que?’ – perguntei. ‘Ah, porque eu só tenho vida política, se tiver algum respaldo…’. ‘Não tenho obrigação de lhe dar respaldo nenhum (…)’. ‘Mas pelo menos o BNH (antigo Banco Nacional da Habitação), presidente”. (O ex-governador do Rio e assessor da Presidência da República não retornou ao pedido de entrevista feito pela reportagem).

Sobre Tancredo Neves (sucessor eleito de Figueiredo, que morreu sem tomar posse):

“Não era de nada. Nunca realizou coisa alguma. Só fez politicagem em Minas”.

Sobre José Sarney (vice de Tancredo, que tomou posse no lugar dele e, hoje, é senador pelo PMDB do Amapá):

“É um grande manipulador, na forma da politicagem. Na prática mesmo, não”.

Sobre Hélio Garcia (assumiu o governo de Minas em lugar de Tancredo, quando este renunciou para disputar a Presidência):

“Bom. Apesar de beber demais”.

Sobre Juscelino Kubitschek (presidente de 1955 a 1960):“Um bom governante. Só teve um lado fraco: quando desejou construir Brasília, quis terminá-la no governo dele e, aí, enterrou o País”.

8 de janeiro de 2019

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