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AMULETOS da Tradição Luso-Afro-Brasileira – BÁRBARA, SANTA

Mártir de origem oriental, cuja lenda se formou em Bizâncio (séc. X): Dioscuro, seu pai, sátrapa da Nicomédia, encerrou-a numa torre para impedir que se convertesse ao cristianismo. Festejada pela igreja latina, desde o séc. XV, no dia 4 de Dezembro. Advogada contra o *raio, a *trovoada e a morte súbita. Também invocada como protectora dos matemáticos, mineiros (barraneiros), fogueteiros, armeiros, artilheiros e bombeiros. De acordo com a sua hagiografia, seu pai, que lhe decepou a cabeça, morreu fulminado por um raio. É prática muito disseminada utilizar a “campainha de Santa Bárbara” para esconjurar trovoadas (cf. Leite de Vasconcelos, Na Beira Alta, in O Arqueólogo Português, v. 22, 1917, p. 333-334). Em algumas regiões do Norte, reza-se a seguinte oração: “Santa Bárbara; Santos Fortes! / Santa Bárbara Bendita, / Que no céu está escrita / Com um raminho de água benta, / Nos livre desta tormenta!”. Na região de Sernancelhe anda associada a *São Jerónimo, tal como Santa Bárbara, “advogado das trovoadas” (cf. Alberto Correia, Etnografia da Beira Alta: nótulas referentes ao concelho de Sernancelhe, in Beira Alta, v. 31, n. 3, 1972, p. 360). A devoção a Santa Bárbara em Trás-os-Montes foi incrementada, durante setecentos, por dois milagres que lhe foram creditados pelos padres da Companhia de Jesus, em cuja igreja seria instituída a primeira confraria de que foi titular na diocese. Os mineiros de São Domingos (Mértola) festejavam Santa Bárbara levando-a em procissão e dando tiros de pólvora seca, enquanto os de Aljustrel preferiam os tiros de dinamite, de resto, em ambos os casos simbólicos dos trovões. No concelho de Mértola canta-se a seguinte cantiga em louvor de Santa Bárbara: “Ó Senhora Santa-Bárbara, / Tenha dó dos barraneiros: / Trabalham debaixo do chão /À luz dos seus candeeiros”.É a Iansã do sincretismo religioso da Baía (Brasil), conservando as mesmas prerrogativas apotropaicas do culto católico.

Oração para afastar trovoadas (Mafra)

Santa Bárba se vestiu, Santa Barba se calçou, Seu caminho encaminhou Jesus Cristo perguntou: – Onde vais Barba? – Vou espalhar trovoada – Espalha-a lá p’ra bem longe onde não haja pão nem vinho, não oiças cantar os galos nem repeniquem os sinos. Já os galos cantam, já os Anjos s’ alevantam Já o Senhor subiu à Cruz para sempre Amen Jesus.

Responso para afastar trovoadas (Sernancelhe)

Jesus Cristo lhe disse: – Santa Bárbara, onde vais? – Eu com o Senhor irei – Tu comigo não irás. Nesta terra ficarás. A arramar [=desviar] estas trovoadas Para onde não haja eira nem beira,

Nem pé de figueira, Nem alminha cristã Nem guedelinho de lã. P. N. e A. M.

Responso para afastar trovoadas (Barroso)

Santa Bárbara bendita Se levantou, se vestiu e se calçou Suas santas mãos lavou Jesus Cristo encontrou E o Senhor lhe perguntou: – Onde vais Barbarinha? – Senhor eu ao Céu vou; – Vai, Barbarinha, vai Desarma aqueles trovões e trovoadas Lá para um castro marinho, Onde não haja pão nem vinho Nem bafo de menino pequenino, Em que só haja uma serpente Sem nada que lhe dar, Se não aguinha da fonte E areia do mar. Pelo poder de Deus e da Virgem Maria Um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

Oração para afastar trovoadas (Norte de Portugal)

Santa Bárbara; Santos Fortes! Santa Bárbara Bendita, Que no céu está escrita Com um raminho de água benta, Nos livre desta tormenta!.

Responso para afastar trovoadas (Ribatejo)

Santa Bárbra se alevantou Seu pézinho direito calçou Nossa Senhora encontrou

Esta lhe préguntou Onde vais Santa Bárbra? Vou espalhar a trovoada Que no céu anda armada Espalha-a lá para bem longe Onde não haja perca nem vinho Nem flor de rosmaninho.

Bibliografia: ANÓNIMO, Varias Oraçoens Approvadas pela Igreja de que devem usar todos os Catholicos, e devotos de S. Barbara na occasiam de Tromenta [sic] e trovoadas, Lisboa Ocidental, 1729 [BPNM: BVol. 2-71-3-16]; MARTINS, Fausto, Presença dos jesuítas em Bragança e introdução do culto e devoção A Santa Bárbara no século XVIII – Páginas da história da diocese de Bragança-Miranda – Congresso histórico (1545-1995), Bragança, 1996, p. 773-782; MOURÃO, José Augusto M., A Oração a Santa Bárbara (Semiótica da acção, Semiótica da Manipulação), in Revista Lusitana, nova série, v. 3 (1982-83), p. 5-36

Fragmento do livro AMULETOS da Tradição Luso-Afro-Brasileira de Manuel J. Gandra

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